Abrigo recebe pessoas em situação de rua em Divinópolis

Ana Laura Corrêa

A previsão do tempo para Divinópolis mostra que a temperatura mínima na madrugada de hoje ficou na casa dos 4°C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Para os próximos dias, a frente fria deve se manter na cidade, no entanto, menos severa, com as mínimas oscilando entre 11°C e 13°C, de amanhã a sábado.

As baixas temperaturas chegaram na última semana em boa parte do país e foram a causa de mortes registradas em diversas cidades.

“Nas noites de frio é melhor nem nascer”

No estado de São Paulo, por exemplo, segundo informações atualizadas ontem, pelo menos seis pessoas em situação de rua podem ter morrido em decorrência do frio. Já na cidade de Belo Horizonte, as baixas temperaturas são a causa provável da morte também de uma pessoa em situação de rua. Outro caso semelhante foi registrado em Curitiba.

“Mas se você achar que eu tô derrotado”

Em Divinópolis, ocorrências assim podem ser evitadas. Segundo a Prefeitura, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social realiza a abordagem das pessoas em situação de rua diariamente nas vias do município, que podem ser encaminhadas à Casa de Acolhimento e para outros serviços que possam recebê-los, inclusive os de saúde.

— Alguns aceitam participar dos projetos sociais e outros preferem ficar nas ruas — informou a Prefeitura.

A Casa de Acolhimento oferece 25 vagas com equipe técnica composta por uma coordenadora, um assistente social, um psicólogo, um auxiliar de serviços gerais, um porteiro e dez monitores.

A entidade, também segundo a Prefeitura, oferta atendimento integral com condições de estadia, convívio e endereço de referência para acolher com privacidade as pessoas em situação de rua, migração ou em trânsito e sem condições de autossustento. A permanência na casa pode ser de até seis meses, desde que sejam obedecidos os critérios pré-estabelecidos.

Além da Casa de Acolhimento, há o Serviço do Migrante, que oferta o retorno de pessoas desprotegidas socialmente e em trânsito por Divinópolis às suas cidades de origem. Para informações sobre os serviços, basta ligar para o 3229-6500 e solicitar contato com o serviço social.

“Sou forte, sou por acaso”

Mesmo com a existência de tais serviços, a reportagem encontrou, na manhã de ontem, Wilson Gonçalves dos Santos, de 61 anos, na porta da Câmara Municipal. Ele chegou
à cidade na noite de segunda-feira, dormiu na rua e, na manhã seguinte, aguardava a abertura da Casa, à espera de que pudesse falar com a Assistência Social do Município, sem saber que o serviço funciona na Prefeitura.

Wilson contou que saiu de sua cidade natal, Palmas, no Paraná, para pagar uma promessa indo a pé até Aparecida, em São Paulo. Percorreu o trajeto, de 946 quilômetros, mesmo tendo um problema em uma das pernas, causado por um acidente de trabalho.

— Faz oito anos que eu não bebo, não fumo e não uso drogas, não tenho vício nenhum. Aí fui a pé, era a promessa. Da minha cidade até Aparecida levei quatro meses, 25 dias e 32 horas — relatou.

“Eu sou um cara”

Ele contou ainda que trabalhava como pedreiro e perdeu tudo por causa dos vícios.                                                                

— Eu tinha um dinheirinho bom no banco, casa, terreno... Gastei tudo com droga e bebida — disse.

Após passar por Aparecida, o ex-pedreiro foi parando em diversas cidades e conseguindo passagens com a assistência social dos municípios. Ele seguirá até Brasília, onde pegará, com uma irmã, o dinheiro de uma herança.

— Se eu tivesse dinheiro para ir direto, já tinha ido e estava lá. Mas saí de casa sem nem um real — contou.

Wilson carrega consigo roupas, cobertores, documentos e também álbuns com fotografias da família.

— Carrego as fotos para mostrar, porque há pessoas que não acreditam em mim. Mostro para verem que sou um cara de família.

Acostumado ao frio do Sul do país, Wilson disse que em Divinópolis “está um clima bom”.

— Lá [em Palmas] não dá para dormir na rua. Se não tiver bastante coberta, roupa, morre de frio. Tem blusas que nem usei ainda. Tenho duas que, se eu vestir, pode cair geada— afirmou.

“Eu vou sobrevivendo sem um arranhão, da caridade de quem me detesta”

E, vivendo na rua, apesar de lidar bem com o frio, ele precisa encarar a fome.

— É difícil arrumar dinheiro até pra tomar um café. Não tem quem dê um real, dois. Eles olham na cara da gente e dizem “é bêbado de rua”. E não é assim, não é todo mundo igual. Se for pra roubar um pedaço de pão, prefiro morrer de fome. Mas se você pede ninguém acredita — relatou.

“Eu vejo o futuro repetir o passado” 

O antropólogo Darcy Ribeiro, na obra “O Povo Brasileiro”, escreveu: “Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade”. A obra foi lançada há mais de 20 anos, em 1995, mas a realidade atual é a mesma, ou pior. 

 

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