A velhice dos outros

Augusto Fidelis

Hoje, logo pela manhã, antes de eu vir para este nosso encontro, fui a três lugares. Em todos eles as pessoas me chamaram de “senhor”: o que o senhor manda? O que o senhor deseja? Em que posso ser útil ao senhor?  Bem, na primeira vez não me importei; na segunda me assustei; e na terceira pus-me a refletir: por quê?  Será que essas pessoas viram algo que eu não vejo?

Ah! Já sei: é a roupa. Como tenho o costume de andar elegantemente vestido, o charme em pessoa, meus interlocutores perceberam que não se tratava de uma pessoa qualquer, então, entenderam que deviam ser respeitosos. Isso mesmo, é a mania de julgar pela aparência. Que bobagem, eu cismado à toa. É verdade que muitas pessoas envelhecem depressa, mas eu e você não. Nós ainda damos um bom caldo sem a necessidade de cozinhar em demasia. A vida é assim mesmo: uns vão antes, outros depois.

Por falar em velhice, você tem visto o Manezinho do Zé do Beijo? Gente, aquele homem é novo, mas como envelheceu, está um caco. Falam que ele é podre de rico, no entanto, nem parece. Ouvi dizer que os filhos dão muito trabalho, claro que ninguém aguenta isso. Outra que está acabada é a Genoveva. Coitada, é uma santa, será canonizada tão logo bata as botas. Agora, quem se mantém bonitona é a Cíntia; também, com aquele marido, quem não ficaria? Leva uma vida de rainha!     

Não lhe conto nada: ontem, estive lá na casa da dona Margarida. Engraçado, ela não deve ser muito velha, mas seus cabelos estão lindos, como pasta de algodão. Uma cabeça boa, fala cada coisa, é uma festa. Foi ela quem me contou que o Garcia está usando nos cabelos um produto indicado pelo Ciro. Se não fosse isso, estariam branquinhos. Se bem que cabelos brancos não são sinônimos de idade. O Juliano, por exemplo, está todo grisalho. Ele diz que tem vinte e sete anos, porém, como não saía dos quinze por um bom tempo, na verdade deve ter mais de trinta. E já não dá conta de segurar a gata pelo rabo.

Há muita gente desocupada que fica falando mal dos outros. Eu, com toda pureza d’alma, não falo de ninguém; não é do meu feitio. Só uma coisinha: o que é aquilo do Luiz Fernando? Faz genuflexão nos lugares mais inusitados, a maior doideira! Outra coisa: o Marcos entrou para a academia, vamos ver se perde agora uns quilinhos, está mais parecendo um capado!  Também, é igual formiga, come doce demais. Mudando de assunto, este café está maravilhoso, temperado de pó e açúcar, do jeito que eu gosto. Por favor, dê-me mais um pedaço deste bolo de laranja, a receita também. Tão logo haja oportunidade, vou mostrar-lhe as minhas orquídeas. Estão lindas, tantas flores...

augustofidelis1@gmail.com

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