A triste escolha

Editorial

Muitos podem não ter se atentado ainda, mas o drama nos hospitais do Brasil vai muito além de leitos exclusivos para a covid-19, oxigênio, contaminação etc. Hoje, com o crescimento dos casos, mais do que em 2020, um dos maiores dramas que os profissionais de saúde vivem é a escolha de quem salvar. Quando tudo isso começou, em março do ano passado, o maior medo das autoridades sanitárias era sobrecarregar o sistema de saúde, seja público ou privado. O temor se concretizou em vários pontos do país, com destaque atualmente para Manaus. Os brasileiros assistem ao caos tomar conta da capital amazonense, com pacientes transferidos para outros estados, na esperança de se salvar o máximo possível de vidas. Vale ressaltar que o caos só foi instalado na capital do Amazonas justamente pelo descrédito que população, empresários e poder público deram à doença. No momento em que era mais do que necessário que se juntassem forças para tentar manter o mínimo de prevenção, tudo foi aberto e o povo viveu a sua vida como se não houvesse uma pandemia para ser enfrentada e combatida. 

Foi justamente este tipo de comportamento que trouxe para os profissionais de saúde a realidade do sistema de saúde colapsado. São estas irresponsabilidades que obrigam médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem à difícil missão: quem salvar? Muitos não se atentam, mas essa realidade não está tão distante de Divinópolis. Profissionais de saúde escolhem, sim, diariamente, quem vão salvar. Infelizmente, hoje o que se vê são médicos divididos entre salvar um paciente de covid-19 ou um acidentado, ou, ainda, um paciente com alguma outra doença que careça de um leito de CTI. Quando as autoridades sanitárias pediram, e ainda pedem, que a população cumpra as regras de prevenção ao coronavírus, é justamente para isso, para que os profissionais de saúde não tenham que escolher entre um acidentado, um de AVC ou um paciente infectado de coronavírus. 

Quando o poder público fala incansavelmente em prevenção, em uso de máscara, de álcool em gel, é para isso: para que tanto um acidentado quanto um paciente com qualquer outra necessidade de atendimento de emergência tenham a mesma chance de sobrevivência. É fato, e não tem como esconder, que o sistema de saúde do Brasil – público e privado – é frágil e não suporta muita pressão. Chegamos hoje com quase 150 vidas perdidas para a covid-19 em Divinópolis, e o povo vivendo como se a normalidade tivesse retornado por uma mágica. Por um lado dá até para entender, e longe de pelo menos querer o fechamento de algum segmento, mas é impossível não pensar em quantas escolhas deverão ser feitas nos hospitais da cidade e quantas vidas serão perdidas em nome do “novo normal” ou, ainda, do simples desejo de que tudo volte ao normal o quanto antes. 

O fio de esperança está aí. A vacina chegou, mas ainda “anda” em passos lentos. Diante disso, só fica o desejo de que essas escolhas acabem o quanto antes nos hospitais da cidade, e que isso aconteça não só por causa da vacinação, mas também pela conscientização do povo. Afinal, nunca é tarde para sonhar, reforçar, e pedir: cuidem-se, mas em todos os aspectos, para que um dia você não seja a “não” escolha de algum médico.

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