A Primeira Palavra

Augusto Fidelis

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Os quatro evangelhos canônicos registram sete palavras ditas por Jesus quando este agonizava na cruz. Na verdade, são frases por meio das quais o Salvador orienta, encaminha, acolhe e intercede nos momentos finais da sua vida terrena. Afinal, o supliciado não é um homem qualquer, mas o Filho de Deus feito homem para a salvação do gênero humano. E sua primeira palavra é justamente a de intercessão por seus algozes, que cumpriam ordem superior. Mas Jesus foi fiel à sua palavra: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”.

Durante toda a sua vida pública, Jesus se ocupou, principalmente, da tarefa de mostrar ao povo a face misericordiosa de Deus. Ao resumir os Dez Mandamentos em dois, Cristo deixou claro que, primeiro, o essencial é amar a Deus sobre todas as coisas. É nosso dever amar a Deus porque ele é o Criador, a quem devemos a nossa existência. Estamos vivos pela misericórdia divina, até nossos fios de cabelo estão contados.

Algum cético poderia indagar: onde está Deus? A ciência nega a sua existência, as sondas vasculham o espaço sideral e não encontram vestígios. A resposta, no entanto, está no Salmo 18: “Os céus proclamam a glória do Senhor, e o firmamento a obra de suas mãos; o dia a dia transmite esta mensagem, a noite à noite publica esta notícia. Não são discursos nem frases ou palavras, e não são vozes que possam ser ouvidas; seu som ressoa e se espalha em toda a terra e chega aos confins do universo a sua voz”. Deus é espírito, portanto, não pode ser encontrado por artefatos construídos pelos seres humanos.

Mas aquele que ama a Deus sobre todas as coisas e confia na sua misericórdia não teme mal algum, porque o Senhor o leva a descansar em verdes pastagens e o conduz às águas refrescantes, derrama óleo puro sobre a sua cabeça e lhe transborda a taça. No momento de dificuldade Deus lhe dá abrigo em sua tenda e, na casa do Senhor, viverá longos dias com tranquilidade.

Mas para habitar na casa do Senhor é preciso ter o coração puro, no dia a dia amando e perdoando as fraquezas do próximo da mesma forma que se deseja ser amado e perdoado. Jesus não só ensinou como também deu o exemplo: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei, pois nisto reconhecerão que são meus discípulos”. E foi muito além: do alto da cruz suplicou Àquele que o enviou: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”.

Nestes tempos de pandemia, quando se vê tantas crueldades patrocinadas pelas autoridades e praticadas por seus agentes, perdoar a essa gente é uma tarefa grande demais para as vítimas. Contudo, é preciso tentar!

augustofidelis1@gmail.com 

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