A morte, o tempo e o amor: a tríade da vida

Frei Jacir Freitas 

O Dia de Finados é o tempo propício para refletir sobre a morte, o tempo e o amor. Nessa tríade da vida, a morte se entrelaça com o amor e o tempo. Começo com duas perguntas: qual é o sentido da morte? O que acontece com quem morre e com quem continua a viagem da vida em direção à morte?  

Sobre a morte, o livro da Sabedoria afirma: “Não procureis a morte com vossa vida extraviada, não vos proporcioneis a ruína com as obras de vossas mãos. Pois Deus não fez a morte, nem tem o prazer de destruir os viventes” (Sb 1,12-13). O autor do livro da Sabedoria fala de uma imortalidade beatífica quando afirma: “Os justos que confiam em Deus ficarão junto dele para sempre, pois a graça e a misericórdia são para os seus eleitos. A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá” (Sb 3,9).  O cristianismo entendeu esse processo como ressurreição. Tempo de vida e de amor eternos no tempo de Deus. Pena que a Igreja ensinou que devo sofrer para alcançar a vida eterna!

Mas o que é mesmo a morte? A morte faz parte da condição humana, embora que, em tempos pós-modernos, nós a ignoramos, mesmo em tempo de covid-19. No entanto, quando ela chega, os corações dos vivos dilaceram numa dor que parece ser interminável. Bate no peito, a cada segundo, o desejo incomensurável de ver o ser amado de novo, mesmo sabendo que no espaço, no tempo físico, na vida terrena, isso nunca mais será possível. 

No jogo da vida, as cartas mudam de posição. Os mortos, contemplando a Deus, nos veem de outra forma, em outro tempo, em outro modo de amar. Para os mortos, o nosso tempo deixa de existir. Já o tempo dos vivos se resume em viver a dor do luto. Passar pelo luto para romper o tempo da morte. Fechar o luto com fé na ressurreição para se abrir ao amor de quem partiu, de modo que o amor dele permaneça unido a nós como teias de fios que se entrelaçam, invisivelmente, na eternidade do tempo; como uma borboleta que sai do casulo/corpo, que nos unia fisicamente, para estar em todos os espaços e tempo, espalhando o amor. O olhar de quem morre atravessa o tempo e o espaço, pois eles pertencem ao tempo de Deus. 

Com o tempo, a própria condição humana se encarrega de amenizar a dor, mas libertar-se dela é quase impossível. A dor transforma-se em saudade, em memórias de um bom tempo vivido. O ainda vivente parece conversar com o falecido, estreitar laços que nunca foram alinhados. Lembranças de um tempo que já passou e não volta mais. Lembranças! Somente lembranças! E nada mais! E um pouco mais!

O amor e a memória que devotamos aos nossos mortos fazem com que eles, ressuscitados, continuem em nosso meio. Isso é retribuição! Isso é ressurreição! Isso é comunhão eterna no amor. Por isso, não há mais espaço para o tempo passado, num choro interminável, regado pela pergunta “Por que ele/ela morreu?”. É hora do tempo futuro, tempo de se perguntar “Para que ele/ela morreu?”. É hora de o falecido retribuir a Deus, devolvendo-O o dom da vida que dele recebeu. É hora de seguirmos o caminho das flores que retribuímos aos nossos mortos. Flores de amor eterno que transformam nossas lágrimas em altares de morte/vida/ressurreição na eternidade no tempo, no amor e no perdão. Amém. 

 

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM, teólogo biblista, escritor e professor de exegese no Ista

bibliaeapocrifos@bibliaeapocrifos.com.br



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