A morte dos filósofos

Raimundo Bechelaine

A morte dos filósofos

Antes de entrarmos no assunto, fazemos um reparo. Por um lapso, faltou o título da nossa publicação do dia 15 deste mês: "O alerta dos bispos". O artigo versava sobre a "Nota da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil diante do atual momento brasileiro". O texto saiu inteiro e correto, todavia sem o título.

Hoje, voltamos nossa atenção para duas grandes perdas da cultura nacional. Em poucos dias, faleceram Roberto Romano e José Arthur Giannotti. Eram dois dos nossos filósofos mais conhecidos.

O primeiro, há uma semana. Roberto Romano faleceu dia 22, quinta-feira passada, aos 75 anos, acometido pela covid-19. Era paranaense, nascido na desconhecida cidade de Jaguapitã, no norte do estado. Ainda criança, mudou-se para Marília-SP; foi militante da Juventude Estudantil Católica (JEC). Graduou-se em filosofia pela USP e doutorou-se em Paris. Foi professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em junho do ano passado, no Jornal da Unicamp, publicou o artigo: "Brasil, o assassinato do espírito". Entre os vários livros que escreveu, "Conservadorismo romântico, origens do totalitarismo", de 2001, mantém grande atualidade. Segundo o reitor da universidade, ele foi um lúcido e perseverante defensor de uma ética "baseada na igualdade e na solidariedade".

Giannotti faleceu anteontem, terça-feira, aos 91 anos. Nasceu aos 25 de fevereiro do histórico ano da Revolução de 30, em São Carlos-SP. Na adolescência, despertou para o estudo da filosofia. Seu pai era adepto do espiritismo e possuía obras de Allan Kardec e outros autores espíritas. Os livros do pai certamente o despertaram para a leitura, porém os devaneios kardecistas não o convenceram. Sua inteligência aguda exigia um saber consistente. Entre os livros que então leu e estudou está "A Origem das Espécies", de Charles Darwin. Outra façanha digna de registro, levando-se em conta o rapazinho que ainda era, foi a leitura e reflexão de outra obra de fôlego, as mais de mil páginas de "Paideia, a formação do homem grego", de Werner Jäger. Em 1950, ingressou no curso de filosofia da USP. Veio a tornar-se um dos grandes filósofos brasileiros contemporâneos. Um dos seus escritos mais representativos é o livro "Trabalho e Reflexão, ensaios para uma dialética da sociabilidade", primeira edição em 1983, pela Brasiliense.

Tanto Romano como Giannotti foram presos, perseguidos e torturados pela ditadura civil-militar de 64. Afinal, as ditaduras e os seus esbirros se borram de medo da inteligência. Ontem como hoje. Mas permanecerão como incansáveis arquitetos e operários na construção da razão brasileira. 

jorababech@gmail.com

 

 

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