A matemática da ilusão

Há um desequilíbrio no ar! O lado esquerdo do cérebro da população tem sido mais usado que o normal. Tudo é medido por números e resultados milimetricamente planilhados. Tudo é contado! Tudo é soma!

Quantas curtidas ele teve? Quantos seguidores ela tem? Quantos quilos ela perdeu? Quantas pessoas assistiram a seu vídeo? Quantos votos ele teve? Quantos likes? Quantos comentários?

Gabamo-nos pelos milhares de amigos virtuais, enquanto não percebemos que a cada dia diminuímos os amigos reais.

Enviamos virtualmente mil beijos, mil abraços, mil aplausos, mil corações e muitas carinhas engraçadas e a cada dia abraçamos menos, acariciamos menos, tocamos menos as pessoas que nos cercam.

Contamos cases de sucesso, mas não contamos as verdadeiras lições advindas dos tombos. Contamos quantos estão de um lado e quantos estão do lado oposto e desconsideramos por completo todos que estiverem ao redor, sem lado, indecisos ou decididos por outras opções.

Contamos quantos pares de sapatos temos na gaveta, quantos países já visitamos, quantos dias faltam para as férias e quantas calorias tem a refeição. E não nos damos conta de quantos pés descalços passam por nós, quantos desempregados ao nosso redor ou quantos famintos.

Para que tanta conta? Onde esperamos chegar com tantos números? Com tantas contas efêmeras não contamos a energia gasta desnecessariamente nem tampouco o dinheiro, a saúde e o tempo perdidos com o que não edifica nem acresce. Esta matemática ilusória tem diminuído nossas alegrias, tem aumentado o índice de solidão, depressão e suicídio. É tudo tão contraditório! Ah, pobre ilusão! Cresce desproporcional aos nossos verdadeiros interesses. E, iludidos, diminuímos o que nos fortalece de fato, diminuímos nossos valores e acreditamos cada vez menos na espécie humana.

Façamos contas mais nobres! Contemos o que vale realmente a pena!

Se é para contar alguma coisa, que contemos a verdade, ou, quem sabe, ajamos para que as pessoas possam contar conosco de fato. Se é para usar a matemática, não seria melhor somar as opiniões, diminuir o sofrimento, multiplicar a colaboração e, quem sabe, potencializar as possibilidades? Pitágoras estaria mais feliz!

Posso dizer de mim que perdi as contas de quantas vezes chorei de emoção. E hoje conto os minutos para chegar em casa. Ademais, parei de contar!

leila@leilarodrigues.com.br

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