A impunidade

A impunidade 

 

Dizem por aí que o Brasil é o país da impunidade e que por aqui o crime compensa. Diante de vários casos de corrupção, de crimes bárbaros e hediondos, em que os culpados hoje estão soltos e vivendo a vida como se nunca houvessem cometido qualquer tipo de crime, é impossível negar que esta é uma verdade – e vergonha – que o Brasil carrega em sua história. O assassinato de Edson Carlos Ribeiro, de 42 anos, comoveu a cidade e gerou uma onda de protestos. Justo, aliás, justíssimo. Edson trabalhava como segurança em uma festa realizada no parque de exposições quando foi agredido com dois socos por um empresário. Logo após o ataque, o segurança não resistiu e veio a óbito. O suspeito, Pedro Lacerda, de 32 anos, foi preso em flagrante e está na Floramar. Conforme relatos de testemunhas, e registrado no Boletim de Ocorrência, ao ser questionado por que tinha feito aquilo – agredido o segurança – o empresário teria respondido: “Fiz porque quis”. 

 

Como se o crime em si não fosse cruel o suficiente, o divinopolitano que se comoveu com a história do pai de família, trabalhador, que havia saído de sua casa para buscar conforto e “voltou” em um caixão, ainda tem que lidar com esta frase perversa: “Fiz porque quis”. Se essa frase realmente foi dita pelo suspeito como as testemunhas relataram, ele não fez porque quis, o empresário fez porque teve a certeza da impunidade. Fez porque pode pagar advogados, e as leis brasileiras o permitem fazer o que quiser e ele sair impune. Fez porque aqui é o país da impunidade. Fez porque aqui o crime compensa. Fez porque aqui é o país onde um homem é socorrido dentro de uma ambulância e a festa continua como se nada tivesse acontecendo, como se a vida não importasse, como se o outro não tivesse valor algum. Fez porque aqui o dinheiro compra tudo. 

 

Hoje, a esposa de Edson, agora viúva, e a filha dele precisam conviver com a dor e a saudade, e ainda aceitarem o fato de que ele saiu para trabalhar e não voltou mais. Edson, assim como tantos outros brasileiros, saiu de sua casa em busca do pão de cada dia e teve a infeliz coincidência do seu caminho cruzar com o caminho de quem faz o que quer, porque sabe que aqui, no Brasil, o crime compensa, seja ele qual for, do maior ao menor “potencial”. Enquanto “Edsons” perdem a vida, e “Pedros” fazem porque querem, o povo segue a vida com essa sensação de vazio, de desespero, que nada mais é do que impotência. Impotência e descrença, talvez sejam essas as palavras que definem os brasileiros, que precisam conviver diariamente com o “tudo termina em pizza”. 

 

Pedro, mais cedo ou mais tarde, será solto e poderá reconstruir a vida. Já Edson foi condenado a um destino triste e cruel, e sua família terá que conviver com isso pelo resto de suas vidas. Tudo pelo simples fato de que aqui, no nosso país, as leis permitem que o povo faça o que quer. Até mesmo um homicídio pode virar lesão corporal seguida de morte, o que diminui qualquer tipo de pena que poderia ser aplicada. Mas a única pena que não diminui é a que o brasileiro carrega, de morar no país da impunidade, quer a gente aceite ou não.

 

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