A humanidade pela política

Editorial 

Não faz muito tempo, mas os brasileiros trocaram a humanidade pela política. Não faz muito tempo, mas o povo trocou as amizades, a família, os colegas de trabalho pela política. Não faz muito tempo, mas deixamos de ser humanos pela política. Trocamos os nossos princípios e as nossas ideologias pelos princípios dos outros e pela ideologia dos outros. Já não somos mais os mesmos e talvez nunca mais sejamos. A democracia e a civilidade brasileira vão dando adeus aos poucos. Um sonho efêmero que durou 31 anos. Aproveitamos intensamente todos os minutos e segundo do nosso direito de ir e vir. Direito este que nos foi roubado em 1964, permanecendo usurpado por 21 anos. Direito esse que nos foi dado com a Constituição Federal de 1988 e conquistado a duras penas. Direito que foi conquistado à custa de torturas, prisões, mortes e muitos protestos. Direito que foi conquistado por aqueles que não temiam o amanhã, que sonhavam com um amanhã melhor e não perderam as esperanças de ver este país livre um dia.

De nada valeu tanta luta, tantos sonhos, tanto sofrimento. Quando brasileiros saíram às ruas em 2017 e pediram o retorno da ditadura, ali cuspimos na alma de quem já se foi e na cara de quem lutou pela liberdade e ainda está aqui. A liberdade nos foi dada, no entanto, somos um povo que merece ser prisioneiro. Somos um povo que merece ser castigado. Somos um povo que não merece a democracia que tem. Uma democracia que não passou de um sonho. Deram-nos o direito ao voto em 1988. Deram-nos o direito de escolher quem nos representaria na Câmara, no Senado, na Presidência, mas será que a missão não era grande demais para o soldado? Será que estávamos preparados para tamanha tarefa? Talvez, naquele momento, não. E, tampouco agora, pois não procuramos melhorar para exercer um direito tão importante quanto o de ir e vir. Não nos preocupamos em fiscalizar, estudar, entender como a política funciona. Afinal, até pouco tempo imperava aquele ditado: “política, futebol e religião não se discute”.

Até pouco tempo, assuntos como esses não eram discutidos. Deixamos de lado a responsabilidade que nos cabia: zelar pela democracia, pela liberdade e pelo nosso direito ao voto. Não honramos os nossos principais direitos quando não cumprimos os nossos deveres. E, agora, deixamos nossa humanidade de lado em nome da política. Em nome de discussões, muitas vezes sem fundamento. Porque simplesmente discutimos, mas não entendemos. Não entendemos que agora precisamos derrubar os nossos muros invisíveis, dialogar, entender como a máquina funciona. Agora, mais do que nunca, precisamos nos tornar humanos. Precisamos nos unir. Agora, mais do que nunca, precisamos de amor, pois o ódio nos moveu, porém para o lado errado. Não podemos mais trocar aquilo que nos torna humanos pela política. Não podemos trocar o amor, o respeito e a empatia por homens que pouco se importam com aqueles que carregam o Brasil nas costas. Talvez, o momento de olharmos para dentro esteja chegando, pois o caos é mais real e palpável do que nunca.

 

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