A falta que a educação faz

Laiz Soares

O conhecimento transforma e liberta. Nada é mais poderoso do que o acesso a uma boa educação para mudar a vida de uma pessoa, de uma família, de uma cidade e de um país. No último domingo, milhares de estudantes fizeram a prova do Enem, exame que pode definir o futuro deles. Infelizmente, nem todos serão aprovados em uma universidade. O ensino superior no Brasil ainda é um privilégio de poucos e um sonho distante para muitos. Para onde vão os outros jovens que não conseguem seguir estudando? Vão para o mercado de trabalho em posições que exigem baixa qualificação, pagam pouco e muitas vezes operam na informalidade, sem direitos nem garantias. 

A nossa cidade tem uma renda média baixa. Temos universidades de ponta e ótimas escolas, mas muitos dos nossos melhores estudantes acabam não trabalhando aqui, por falta de oportunidades. Essa fuga de cérebros impede o nosso desenvolvimento, e perdemos muito com isso, pois acabamos reproduzindo o ciclo da informalidade e do baixo valor agregado na nossa economia. O desafio de gerar emprego e renda para todos, especialmente para os jovens, não se limita somente a “trazer empresas de fora” ou “ajudar as empresas daqui”, visão rasa que muito se escuta na nossa política quando o assunto é desenvolvimento econômico. 

Precisamos qualificar e muito o nosso capital humano, a nossa força de trabalho. Não existe outra forma que não seja a educação. O que é preciso fazer? Valorizar a educação básica desde a creche, melhorar muito a capacidade de aprendizado dos alunos no ensino fundamental. Conectar a escola com a vida, com a cidadania, com a tecnologia, com a cultura. Promover o ensino técnico de qualidade e que tenha aplicabilidade para a economia local. Trazer sentido para o estudo, ajudar os alunos a sonhar e a realizar. 

Em provas como o Enem, a dura realidade de alunos mal formados bate à porta. É onde aparece a faceta mais cruel da desigualdade. O aluno que estudou a vida toda em uma ótima escola particular paga o melhor cursinho preparatório e arrebenta nas notas. Muitas vezes consegue escolher em qual universidade vai estudar. Já o aluno da rede pública, que não teve as mesmas oportunidades, tem que fazer a mesma prova, sem ter feito cursinho. Mesmo que ele se esforce muito, suas chances sempre serão menores.  

Difícil de resolver, o problema da educação no Brasil e na nossa cidade grita, e o dramático é que o mundo não espera e o mercado de trabalho já é e será cada vez mais implacável com quem não estiver preparado. Uma das coisas que acredito e gostaria de ver acontecer seria uma grande parceria da rede privada com a pública para a criação de uma política pública de preparação para o Enem, na qual todos que não podem pagar pudessem ter acesso gratuitamente a um curso preparatório de alto nível. 

Eu sinto uma angústia e uma frustração enorme quando penso que cada dia conta. Cada dia sem aula direito, cada dia sem um projeto inovador para transformar nossa educação é um pedaço de futuro que perdemos quando não conseguimos ser eficientes na missão de formar bem nossas crianças e jovens. A minha grande motivação na política é essa: levar oportunidades parecidas com as que eu tive para quem não teria essa chance.  

Eu sou uma privilegiada e reconheço isso. Agradecerei eternamente a Deus e à minha família pelo presente de ter tido a chance de ter uma boa formação escolar e acadêmica, de ter acesso ao conhecimento que me torna capaz, que me da capacidade crítica, que me dá velocidade de pensamento, agilidade mental e cognitiva, competências e habilidades para sonhar e realizar o que eu quiser. Esse é o maior patrimônio que eu construí e que eu herdei, e que ninguém me tira. Me dói saber que eu sou uma exceção, eu queria que essa fosse a realidade para todos. Em um mundo mais bem formado, mais iluminado pelo conhecimento, não há espaço para exaltação da ignorância, não há espaço para manipulações nem populismos. Há progresso, há qualidade de vida, há oportunidades. A saúde é melhor, a democracia é mais forte, a economia mais dinâmica. Conhecimento gera mais conhecimento, e o contrário também é verdade. O povo padece pela ignorância, e isso é muito triste. Até quando? 

Laiz Soares é formada em relações internacionais pela PUC Minas e pela Essca na França, atuou liderando equipes e projetos no setor privado, em ONGs e no Congresso Nacional.

laiz.soaress@gmail.com

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