A espera de quem está na fila e a história de quem adotou 3 filhos

Divinópolis tem 8 crianças e adolescentes aptos a adquirir nova família

Marília Mesquita

Oito crianças e adolescentes com idades entre 10 e 15 anos estão na fila de espera para serem adotados em Divinópolis. Em contrapartida, 50 casais e/ou adultos já passaram pelo acompanhamento social e estão na fila para adotar. Isso porque adoção é espera. Espera daqueles que almejam um lar e espera daqueles que buscam um filho para construir um lar.

Porém, na realidade da adoção, 51% dos pretendentes registrados no Cadastro Nacional de Adotantes (CNA) desejam um filho que tenha idade de 0 a 3 anos. Em Divinópolis este número é ainda maior: 68% dos cadastrados no Tribunal de Justiça. Não há adotantes para crianças acima de 7 anos na cidade. 

Adoção deve ser uma atitude egoísta. É por isso que o professor José Heleno Ferreira, 52, acredita que a adaptação dele com os filhos adotivos foi rápida.

— Adoção não é caridade. Adoção é a realização de um desejo pessoal — pondera.

Há 12 anos o tempo de espera dele terminou após um processo de quase dois anos.

— Ser pai sempre foi um desejo. Então, com 38 anos entrei na fila de espera e minha única exigência era que a criança tivesse até seis meses de idade. Mas, quando a assistente social me telefonou, disse que três irmãos estavam aptos para adoção. Como ter mais de um filho era uma possibilidade para mim, aceitei — conta.

José Heleno é homem de sorte por ter Letícia, 18; Lucas, 16; e Túlio, 15. Todos eles maiores do que os seis meses na época da adoção. 

Instituições acolhedoras

Hoje, 57 menores vivem em três instituições no município. São elas: Comunidade Servos da Cruz de São Damião, Associação Mãe do Perpétuo Socorro e Casa Maria Mãe Mestra.

Todos eles foram afastados dos tutores legais por estarem, segundo o Conselho Tutelar e a autoridade judicial, em situação vulnerável. Seja por maus tratos ou qualquer condição que os prive de um desenvolvimento saudável e digno, como assegura o “Estatuto da Criança e do Adolescente”.

Segundo a assistente social judicial Glaucia Ribeiral, nenhuma criança é encaminhada à adoção se há a possibilidade de voltar para o convívio com a família de origem.

— Deve ficar claro que a prioridade é de que haja o resgate familiar. Os assistentes fazem um acompanhamento com a família e com a criança, para que seja restabelecido o laço. Caso seja constatado que não é possível, parentes próximos como avós e tios são procurados. Apenas após todo esse processo a criança ou o adolescente estará apto a ser adotado — explica.

Processo

A adoção é uma medida excepcional e irrevogável, como bem diz a lei. Desta forma, a burocracia não atrasa o processo. Segundo o juiz da Vara de Execução Criminal, Infância e Juventude, Francisco de Assis Corrêa, é preciso que os interessados tenham habilitação para passar pelos trâmites legais.

— Além dos documentos que são também uma forma de evitar trapaças no processo de adoção, os interessados em compor o Cadastro Nacional de Adotantes precisam fazer um curso preparatório com conteúdo programático, onde inclusive são abordadas as condições das crianças e dos adolescentes que podem ser adotados. Alguns adotantes querem ser pais de crianças que nem nasceram e de crianças que nasceram não podem ter tido nenhum contato com a família de origem. O que raramente acontece — pondera.  

José Heleno concorda com a assistência necessária até que a adoção seja concretizada: 

— Se não der certo, o adotado pode ser devolvido. O termo é este mesmo: “devolvido”. Como se fosse uma mercadoria. Já aconteceu isso com um dos meus filhos e eu sei quais sequelas ficaram nele — pontua.

Desta forma, a espera e os trâmites permitem refletir sobre a decisão de adotar.

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