A cruz e a espada

Editorial 

Uma expressão popular é muito utilizada quando uma pessoa encontra-se em um dilema, que é estar “entre a cruz e a espada”. E é justamente assim que o prefeito de Divinópolis Galileu Machado (MDB) vive no momento. Pelo quarto ano consecutivo, Galileu se vê em uma situação dramática, que pode custar o salário do servidor público municipal em dia, e isso não é nada bom em ano eleitoral. Explicamos.

O prefeito encaminhou à Câmara um projeto de lei que prevê a suspensão do recolhimento das contribuições previdenciárias patronais e respectivos parcelamentos dos servidores municipais, para tentar garantir o pagamento do funcionalismo, sem parcelamento (talvez), até o fim do ano. A justificativa apresentada pelo Poder Executivo é que a pandemia da covid-19 fez a receita do Município cair R$ 16 milhões, entre abril e junho, e, com isso, será necessária uma “ajuda” para manter o salário do servidor em dia. Talvez esta seja a cruz, e a espada seja o fato de que, caso consiga aprovar a proposta, a “conta” ficará para o próximo prefeito pagar – que pode vir a ser Galileu, caso ele confirme sua candidatura e seja reeleito. Conforme prevê o projeto enviado pelo Executivo ao Poder Legislativo, seriam suspensos os repasses em atraso e os que vencerem até dezembro deste ano, e, pelo mesmo período, ficariam suspensos também os parcelamentos já firmados pelo Município. 

Pelo menos por enquanto, a proposta não foi analisada pelos vereadores, visto que constou na pauta da reunião extraordinária da última segunda-feira, mas foi retirada pelo presidente, Rodrigo Kaboja (PSD). A alegação dele é que foi um pedido da própria Prefeitura para se fazer adequações.

Sim! Galileu encontra-se em uma situação apertada, pois foi eleito em 2016, graças aos seus votos cativos da periferia da cidade, porque, se dependesse do servidor público, ele não voltaria ao cargo de chefe do Executivo. Muitos podem não se lembrar, mas seu mandato no início dos anos 2000 foi marcado pela insatisfação do funcionalismo público municipal e por greves causadas por sucessivos atrasos de salário. Aqueles que acompanham o cenário político há mais tempo devem se lembrar também da icônica história da “goiabada na marmita”. 

Mas, memórias à parte, o prefeito está literalmente entre a cruz e a espada, pois voltou ao poder 12 anos após perder uma eleição para Demetrius Pereira e se viu obrigado a parcelar o salário do servidor todos os anos, desde sua posse em janeiro de 2017. As justificativas não faltaram: Prefeitura quebrada; confisco do Governo do Estado; transição de Governo Estadual e agora o coronavírus. A tudo isso deve-se somar ainda o fato de que Galileu não governa sem a sua base no Legislativo. O prefeito depende de seus aliados para conseguir “passar” este projeto, manter o salário em dia e, assim, não carregar um fardo para sua campanha.

A jogada é arriscada, pois, caso seja reeleito e o projeto passe, Galileu estará fazendo agora uma dívida que ele mesmo terá que pagar em seu próximo mandato, mas vale ressaltar que ao mesmo tempo em que é arriscada, a manobra é necessária, porque neste dilema do “entre a cruz e a espada”, o prefeito deve estar se perguntando se vale a pena manchar sua campanha que ainda não começou. 

No fim de tudo, isso é só mais um dia normal em Divinópolis, só mais um ano normal na cidade. Tudo está “dentro dos conformes”, como foi nos últimos quatro anos. É só aquele “jeitinho brasileiro”, que faz tudo dar certo no fim. 

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