A conta chega pra todos

Editorial

Um ditado muito conhecido diz o seguinte: “Aqui se faz aqui se paga”. Em outras palavras, afirma que se você plantar tomate não vai colher maçã. Neste fim de semana, que seria o de Carnaval, várias pessoas postaram uma montagem que trazia uma foto específica do Carnaval de 2020, e embaixo a imagem de um sambódromo vazio, com os seguintes dizeres: "Pensou que essa conta não iria chegar?”. A imagem, que tomou conta das redes sociais, além de apenas espalhar e confirmar ainda mais a ignorância brasileira, nos faz pensar: somente quem gosta de Carnaval que pagou conta? A população de Divinópolis viu neste fim de semana a chegada de pacientes com covid-19, transferidos de Coromandel e Monte Carmelo, para hospitais da cidade. Não há leitos disponíveis na região do Triângulo Mineiro  e a vinda destes pacientes para Divinópolis é o fio de esperança para que eles vençam a batalha contra o coronavírus e voltem para suas casas, suas famílias e seus amigos.

Mas o que a transferência de pacientes de Coromandel e Monte Carmelo tem a ver com a imagem do Carnaval que viralizou nas redes sociais? Tudo! Talvez não fosse tamanha ignorância do brasileiro não estaríamos nesta situação. Talvez não fosse a falta de entendimento do brasileiro, o sistema público de saúde não estivesse sobrecarregado. Pois muitos dos que estão por aí espalhando ignorância nas redes sociais, querendo responsabilizar X ou Y pela situação que o país se encontra, sentados em suas cadeiras de juízes, estão também vivendo a vida como se não houvesse uma pandemia. É triste, mas é a mais pura realidade. É necessário encarar que, além de sermos o país que menos teve estratégias de prevenção à covid-19 por parte dos governos, ainda estamos parados lá atrás, em março de 2020, quando tudo isso começou.

A população que insiste em focar apenas no “onde começou”, “quem começou”, é a mesma que aglomera e não cobra das autoridades locais informações e planos que funcionem efetivamente para que tudo isso seja ao menos controlado. A situação vai além de triste, ela é revoltante. Divinópolis recebe 11 pacientes de outras cidades, por não haver leitos em seus respectivos municípios; em contrapartida, o secretário municipal de Saúde, Alan Rodrigo, e o superintendente regional de Saúde, Júlio Barata, não conseguem falar com firmeza se a vinda destes pacientes não afetará o sistema público de saúde de Divinópolis. Já o prefeito Gleidson Azevedo (PSC) afirma que não impactará em nada.  Em paralelo a isso, a Polícia Militar (PM) dispersa aglomerações de irresponsáveis. Isso tudo sem contar as festas que foram e estão sendo realizadas e não foram denunciadas. Parece que a conta chega, mas não é só para quem gosta de Carnaval, ela chega para todos, sem distinção de raça, cor, sexo ou situação financeira. Ela chega para todos, e gastar energia com pensamentos inúteis talvez não seja o caminho certo para ao menos tentar controlar a situação, pois, se o sambódromo está vazio, a igreja também está.

A conta chegou e vai continuar chegando dia após dia, pois, é como diz o ditado: aqui se faz, aqui se paga!

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