A coalizão política garante a governabilidade e gera oportunidade de corrupção

Euler Vespúcio

A coalizão política garante a governabilidade e gera oportunidade de corrupção

A prática é antiga nas terras do Brasil.

Os governos, para garantir a governabilidade, entregam os Ministérios para aliados da base de apoio no Congresso, dita “porteira fechada”, com total liberdade.

Essa forma de manutenção da governabilidade já foi causa de crises políticas, com acusações de corrupção nos governos últimos, de Lula (Mensalão) e Dilma (Petrolão).

Em 2018, em sua proposta eleitoral, o candidato Jair Bolsonaro propôs uma nova política, com o fim do “toma lá dá cá, sem acordos espúrios”. Tudo mudou, no dia 24 de abril de 2020, após Sérgio Moro pedir demissão do cargo de ministro da Justiça, com acusações de Bolsonaro ter agido para interferir politicamente na Polícia Federal. O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a instauração de inquérito, para averiguar eventuais infrações, do presidente e do ex-ministro.

Diante da perspectiva da aceitação do cometimento de crimes e aumento da perspectiva de ser acatado o pedido de impeachment, Bolsonaro passou a praticar o “toma lá dá cá” para reforçar a base aliada no Congresso, com oferecimento de cargos e emendas, principalmente para o Centrão. Quer dizer, para garantir a governabilidade cometeu o mesmo erro que governos anteriores.

A necessidade de urgência da compra de vacinas gerou a oportunidade perfeita para corruptos gananciosos poderem aproveitar do sofrimento alheio para dilapidar os recursos dos cofres públicos, tudo camuflado sob o lema de salvar vidas.

Na pandemia, até então, esse governo era caracterizado por ser um negacionista da ciência, com prescrição de medicamentos sem eficácia, condenação do isolamento social, postergação da compra de vacinas.

Os últimos acontecimentos (superfaturamento na aquisição da vacina Covaxin e pedido de sobrepreço de um dólar para cada dose da AstraZeneca) foram diferentes de todas as demais vacinas nas quais não houve propina, como quando demorou a adquirir a Pfizer por não haver proposta de propina ‒ mas acelerou a aquisição da Covaxin (alocação de recursos, comunicados etc.) por haver suposto interesse em receber propina.

No dia 28 de junho, o presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou “Não tenho como saber o que acontece nos ministérios”, mas nas reuniões diárias com os ministros é inteirado dos assuntos importantes, principalmente, em um momento de pandemia, da aquisição de vacinas envolvendo vultosos recursos.

Além disso, Jair Bolsonaro, político com experiência de mais de 30 anos em cargos eletivos, sabia das consequências maléficas de se aliar ao Centrão. Tivesse ele um vice com perfil político experiente e articulador, já haveria negociações políticas para a sua deposição.

Bolsonaro está completamente dependente do Centrão para impedir o acolhimento de uma das dezenas de pedidos de impeachment. Caiu o seu último discurso e não adotou ações efetivas para retirar interferências políticas no Ministério da Saúde, dominado pelo Centrão e aparelhado por militares.

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