A banalização da vida

Quanto vale uma vida? Um celular? Um boné? O ciúme de uma mulher? Um relacionamento? Quanto vale uma vida hoje? Vale uma bolsinha de moeda, com R$ 10? Vale uma desconfiança? Vale a luta pelos direitos iguais? Ou vale o simples fato de não pensar como o outro? Quanto vale uma vida? Nos tempos atuais, uma vida não está valendo simplesmente nada. Basta um segundo para que planos, o futuro de uma pessoa seja desfeito bem ali, debaixo dos olhos de qualquer um em plena luz do dia. Basta discordar do pensamento do outro para que se perca a vida. Basta ter ciúmes de uma mulher, ou, ainda, basta estar no lugar errado e na hora errada. Basta muito pouco para que sonhos, lutas e ideais sejam desfeitos em uma fração de segundos. Isso só mostra que o ser humano nunca passou por uma situação tão delicada, na condição de humano, como agora.

A Polícia Civil do Rio prendeu, ontem, dois suspeitos de terem matado a vereadora Marielle Franco (Psol). O crime completa um ano amanhã e foram necessários praticamente 365 dias para se chegar aos supostos atiradores, que mataram a parlamentar e seu motorista Anderson Gomes. A prisão não é o fim de um caso que chocou o país. É apenas o início. O início de muitas perguntas, dentre elas as principais: quem mandou executar Marielle? Por que mandaram matar? A parlamentar era conhecida por lutar pelos pobres e negros. Sua pauta era pela igualdade. Quem Marielle incomodou, a ponto de que sua vida não valesse simplesmente nada? Quem não queria mais que a vereadora continuasse sua luta?

Casos como o de Marielle são registrados todos os dias. Basta uma palavra errada, um questionamento, para que uma pessoa entre nas estatísticas dos homicídios no Brasil. Mas, o que mais chamou a atenção no assassinato da vereadora foi o fato de, mesmo morta, continuar incomodando muita gente. Marielle foi silenciada, mas seu legado continuou ali, latente, gritando aos quatro cantos do país que o ser humano patina no quesito humano. Afinal, quantas pessoas comemoraram a morte dela? Quantas tripudiaram sobre o seu assassinato? E, agindo assim, quantas pessoas banalizaram a vida, esquecendo-se que hoje uma vida não vale simplesmente nada? Incluindo a sua!

E quem patina ao lado da humanidade é a democracia. A partir do momento em que uma pessoa comemora o assassinato brutal de outra pessoa, ela, além de tornar-se um monstro, permite que a democracia escorra pelo ralo. Consente que mais e mais crimes como estes sejam cometidos todos os dias. Permite que mais e mais pessoas se tornem refém do medo e percam, aos poucos, o seu direito à liberdade de expressão e pensamento. É preciso parar tudo para que a humanidade seja reencontrada e um novo rumo seja tomado. Sem humanidade não há democracia. Sem empatia não há humanidade. Já dizia Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim”. Quem pagou para Marielle ser assassinada? Quem paga para a gente ficar assim? Quem paga para a vida ser banalizada?

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