A bajulação é branca

Domingos Sávio Calixto

É humilhante e vergonhoso quando um chefe de governo mostra-se completamente servil a outro tal qual um fantoche, um títere. Lamentavelmente existem diversos precedentes históricos – uns mais, outros menos vergonhosos – que podem ser encontrados ao longo da formação política e nacional do Brasil.

Veja-se o caso de dom Pedro II. Sua Alteza foi aclamado e coroado imperador do Brasil em 1841, logo após ter conseguido a maioridade aos 14 anos idade, mediante declaração do parlamento brasileiro (Assembleia Geral). Permaneceu no poder até o golpe da república em 1889, quando foi exilado, tendo falecido dois anos depois, em Paris.

Sabe-se que dom Pedro era “idolatrado” pelos americanos dos EUA (...) – tanto que era chamado de imperador “Yankee” e até diziam que se parecia com um “fazendeiro rico”. Tudo ficou demonstrado em uma viagem de Sua Alteza por aquelas plagas em 1876, quando visitou boa parte do território americano, praticamente fez os primórdios da posterior e famigerada rota 66, visitando o país de costa a costa. Ao todo, percorreu 15 mil quilômetros distanciados entre 22 estados, devidamente acompanhado da imperatriz Teresa Cristina.

O monarca brasileiro teve-se com o próprio presidente americano da época, Ulysses Grant, juntando-se a ele em comemorações pelo centenário da declaração da independência. Também conheceu pessoalmente o inventor Alexander Graham Bell – do qual encomendou aparelhos telefônicos para o Brasil. E, ainda, como era período eleitoral, dom Pedro foi lembrado e até “votado” para presidência daquele país, claro que como homenagem e manifestação de apreço (mais de 4 mil votos).

Para entender esse quadro de amabilidades e gentilezas, é necessário retornar ao ano de 1865, quando terminou a guerra civil americana, coincidentemente em data de 13 de maio. Com a derrota, os fazendeiros do sul perderam o “direito de escravidão” e muitos deles partiram (fuga?) para o Brasil numa viagem custeada pelo governo brasileiro e sob a promessa de alojamento inicial, bem cidadania rápida e acre de terreno ao preço de 22 centavos de dólar americano, uma pechincha irrecusável.

O próprio dom Pedro II foi ao porto de São Paulo para receber e cumprimentar os recém-chegados imigrantes em busca de terras e “escravos baratos”. Muitos vieram, ficaram e se sentiram muito “à vontade”. Inclusive, foi no meio dessa vinda de “confederados” que dois deles (James Warne e John Klink) se envolveram no linchamento e homicídio – diante da própria família – do delegado Joaquim Firmino, em 1888, por conta da atuação do policial em proteger (conforme a lei) escravos negros de abusos e violências. Realmente os “confederados” se sentiram acomodados por aqui, como de fato era para sê-lo. 

Ocorre que, para entender “um pouco mais” o imperador “Yankee”, também é necessário lembrar o ano de 1869, quando Arthur de Gobineau chega ao Brasil como ministro da França, cargo equivalente a diplomata. O racista Joseph Arthur de Gobineau é autor de uma das obras mais racistas de todos os tempos, chamada “Ensaio Sobre as Desigualdades entre as Raças Humanas”, de 1853, uma obra prima da  desigualdade humana.

Gobineau chegou e se tornou grande amigo de dom Pedro II. Dividiram pensamentos e palavras, de tal sorte que o imperador viu-se influenciado pela necessidade de embranquecimento do país, caso o Brasil quisesse firmar-se como nação devidamente reconhecida para além de sua penumbra mestiça. E assim foi tentado.

Compreende-se, portanto, a aproximação com os confederados, os quais abriram a investida imigratória em terras tupiniquins, tudo em claro prejuízo dos próprios nacionais (mestiços) daqui, bem como se compreende também o prestígio do imperador “Yankee” e sua popularidade por lá, nos EUA.  Tristes trópicos.

domingosavio88@yahoo.com.br 

 

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