500 mil vezes não

Editorial

O Brasil atingiu, na última semana, a triste marca de 500 mil mortes causadas pela covid-19. Ontem, este número já ultrapassava 502 mil. Mas, muito além de um dado, de estatísticas, são 502 mil ausências ‒ faltas, sorrisos que se foram e presenças que não estão aqui mais. São pais, filhos, amigos, tios, primos, avós, que perderam a batalha para o vírus. Jogados à própria sorte, eles lutaram com os recursos que tinham disponíveis, mas o vírus junto à ignorância foram maiores do que as suas forças. À mercê de políticas públicas que os ajudassem a voltar para suas casas, esses 502 mil brasileiros hoje são ausência que dói, que corrói e que revolta. 

Infelizmente, o brasileiro decidiu tomar o pior caminho que poderia no início desta pandemia: politizar a doença. Ao preferir criar teorias da conspiração, acreditar em notícias falsas e dividir a doença entre “direita e esquerda”, em vez de se proteger, cobrar políticas públicas que preservassem as vidas e exigir vacinas, o povo cometeu o maior dos seus pecados. Hoje, mais de um ano depois, com milhares de erros cometidos, que custaram vidas, sorrisos, sonhos, planos, alguns ainda insistem neste caminho que não leva – e não levou – a lugar algum. Sem sombra de dúvidas, continuar misturando política com a pandemia não é o mais eficaz. A única coisa que poderia trazer algum efeito nesta situação, agora, seria o povo colocar os pés no chão e cobrar o que lhe é de direito: a vida. 

Estamos há mais 464 dias enfrentando este mal invisível. A pandemia parece estar cada dia mais longe de ter fim. Os indicadores epidemiológicos estão cada vez piores. As más notícias não param de chegar. Nos despedimos de pessoas amadas, as vimos dando adeus e, mesmo assim, insistimos neste caminho que só traz a uma pergunta: onde nos perdemos? Quando deixamos de ser seres humanos? Quando ideologia política valeu mais que a vida? Quando um presidente, um governador, um prefeito, um vereador, um deputado, um senador valeu mais do que o próximo? Quando deixamos de nos importar? Já são 15 meses de guerra, de mortes. Quando passamos a achar normal pessoas perderem a vida para esta doença? Quando levantar, ler o jornal e ler: “ontem foram registrados X óbitos por covid-19” começou a fazer parte da nossa rotina? Quando nos tornamos covardes? 

Hoje, a luta não é mais por político X ou Y, hoje a luta é pela vida. É para que famílias não sejam mais devastadas por causa dessa doença. Para que o brasileiro tenha direito à informação correta, que o traga proteção. Para que possamos finalmente sonhar com a normalidade. Hoje a luta é para que pais parem de enterrar filhos; e filhos, os pais. O anseio é para que pessoas parem de ser arrancadas dos berços familiares. É para que seres humanos parem de ser estatísticas em boletins epidemiológicos. Hoje, a luta é pela humanidade, pois política nenhuma vale mais que uma mãe, um pai, um amigo, um avô, um tio, um primo, um filho. 500 mil vezes não!

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