30 dias

Já são 30 dias que tudo aconteceu. Às 12h28, daquela sexta-feira, 25 de janeiro, mais de 300 pessoas foram condenadas à morte em Brumadinho. Mais de 300 famílias foram condenadas a viver a eternidade com a dor, a tristeza e o desespero. O maior acidente – se é que se pode chamar de acidente – trabalhista do Brasil era registrado naquele dia. Trinta dias se passaram e nada, absolutamente nada foi feito. Algum executivo aqui, outro ali foi preso, logo após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, mas nada que desse um alento de que os culpados haviam sido responsabilizados por seu crime. Nada! Absolutamente nada foi feito. Uma visita de autoridade aqui, outra ali, mas tudo permanece exatamente igual. Vidas destruídas, vidas arrasadas e os responsáveis livres.

Os deputados prometeram a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), mas nem isso saiu do papel. Enquanto a bancada da internet usava a tragédia para fazer palanque eleitoral, centenas de família só queriam seus entes queridos. Vivos ou mortos! Eles só queriam uma despedida e o alento de que realmente havia acabado. Hoje, de acordo com o Corpo de Bombeiros, estão confirmadas 179 mortes, e outras 131 pessoas seguem desaparecidas. Se, no dia 25 de janeiro, Brumadinho ficou lotada de imprensa, autoridades, governantes, aproveitadores e todo tipo de gente, agora ela cai no esquecimento. Uma vez ou outra um órgão de imprensa vai ao local para pegar dados e fazer algumas fotos. Os governantes já chamam o crime de “incidente”, e nada, absolutamente nada é feito.

Apenas os militares do Corpo de Bombeiros permanecem em Brumadinho em busca dos corpos, mesmo sabendo que muitos jamais serão encontrados e muitas famílias estão condenadas a viver com a tristeza de não se despedir do seu ente querido. Esse é o Brasil. O Brasil do esquecimento. O Brasil do descaso. O Brasil da dor. Várias cruzes foram colocadas na comunidade atingida pela lama. Aos moradores, só restou fazer um protesto silencioso, dolorido. As famílias se encontraram para se ajudar, porque, ao que tudo indica, a ajuda vai vir só assim: um abraçando o outro, um segurando a mão do outro. Às 12h30 um helicóptero jogou, mais uma vez, pétalas de rosa. Uma carta foi lida, como forma de agradecimento ao Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e voluntários que permaneceram até quando puderam.

Mais uma vez uma tragédia aos poucos cai no esquecimento. Assim como o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, caiu. Assim como a queda do pavilhão da Gameleira, em 1971, que deixou 69 mortos e mais de 100 feridos, caiu. E, justamente assim, a história do Brasil é construída, com base em esquecimentos e injustiças. E, justamente assim, com o descaso, que os brasileiros vivem seus dias. E, justamente assim, com a impunidade que o povo é condenado a viver. Ontem completou 30 dias, no próximo mês serão 60. Daqui alguns anos, será apenas mais uma história para contar. Daqui alguns anos, serão apenas estatísticas de “acidente de trabalho”. Daqui alguns anos, mais vítimas serão feitas e ninguém será responsabilizado.

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