‘Tempo do pobre’

Editorial 

Ano eleitoral chegou, e com ele o “tempo do pobre”. Este é o período em que o menos favorecido financeiramente é mais idolatrado e valorizado em sua vida. É o tempo em que o pré-candidato se esquece que tem nojo de pastel de feira, de caldo de cana e outras iguarias encontradas por lá. Este é um dos anos em que os políticos e os pré-candidatos lembram-se das ruas esburacadas, dos esgotos que escorrem a céu aberto. Este é o tempo em que voltam a memória que os pobres passam fome, vivem apenas com um salário mínimo, que tem que sustentar uma família com cinco, oito, dez pessoas. Este é o tempo do “beija o pobre, abraça o pobre, segura o pobre”, “faz cara bonita para a foto com gente da periferia”, “pega o filho dela no colo” e por aí vai. É chegado “o tempo do pobre”. Ou melhor, da caça a ele. 

E, para piorar tudo isso, o Brasil está no meio de uma pandemia que até hoje matou mais de 11 mil pessoas no país. Subitamente, os ricos lembraram-se dos pobres, das cestas básicas. Inesperadamente, os políticos e os pré-candidatos se lembram que na sua cidade existem milhares de pessoas que passam fome. Agora, essas pessoas ficam interessantes possuem as melhores qualidades do mundo. Subitamente, é simpático ajudar ao pobre, tirar fotos e postá-las nas redes sociais, afinal, é necessário provar que o pobre é valorizado. É chegada a corrida contra o tempo. O momento do “quanto mais pobres eu agradar, mais chance eu tenho de ganhar”, “quanto mais cestas eu doar, mais chances eu tenho de me eleger”, “quanto mais gente ignorante eu enganar, mais chance eu tenho de chegar ao poder”. Realmente, foi dada a largada da caça ao pobre. 

De repente tudo mudou. O pobre agora vale ouro. Uma cesta básica vale ouro, ou melhor, um pobre e uma cesta básica valem um voto. E tudo está mais do que propício para isso, afinal, é tempo de desespero, de desesperança, incertezas, de enganar e de se tornar o salvador (a) da pátria. É tempo de aqueles que já estão eleitos e nunca visitaram uma rua sequer da periferia da cidade até tomarem café nas casinhas simples, que estão nas ruas que aguardam por melhorias há mais de 40 anos. É tempo de quem não sabe o que é não ter nada para comer em casa ditar regras de como acabar com a pobreza. É tempo de quem nasceu e foi criado no mais puro conforto se “solidarizar” com quem passa fome todos os dias e até se dizer sabedor de toda a situação.  

Em tempos de pandemia, o que mais tem por aí são interesses eleitoreiros escondidos por trás de solidariedade, o que mais se vê por aí é palanque político por fantasiado de “amor ao próximo” e de discursos dignos de prêmio Nobel. O que mais entristece nisso é que é tempo de muitas pessoas serem enganadas por esta bondade, que nada mais é do que “um lobo em pele de cordeiro”. O Brasil não mudou. A pandemia não mudou e não mudará as pessoas. A humanidade continua e continuará mesquinha e medíocre. As atitudes são as mesmas de todos os anos. O que mudou foram os rostos, que agora são jovens e angelicais, e os discursos são os mesmos, porém, em tom de renovação. Mas, não, tudo está exatamente igual. “O tempo de pobre chegou” e da enganação também. 

 

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