‘Meu pai há dois meses andava com meu cachorro na rua, hoje está praticamente tetraplégico’, diz filha de paciente que aguarda há quase 40 dias por transferência para BH

Desde o dia 12 de outubro, Osvaldo Geraldo de Oliveira, de 77 anos, está internado no Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD), à espera de transferência para a Santa Casa de Belo Horizonte. Ele foi diagnosticado com quadro de mielite longitudinalmente extensa progressiva - uma inflamação na medula espinhal que tira os movimentos.

O tratamento é um procedimento semelhante à hemodiálise, denominado plasmaferese, que envolve diversas sessões. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na região, é feito apenas na Santa Casa de BH. Na capital, também há um hospital particular que oferece a intervenção, no entanto, a família não tem condições de arcar com os custos, que podem chegar, segundo pesquisaram, a R$ 25 mil por sessão.

A alternativa foi buscar a Justiça, no entanto, para que o Estado ou o Município arquem com as despesas, é necessário que o hospital forneça um orçamento do tratamento. A instituição, porém, não disponibilizou a estimativa.

— Como não é uma coisa cirúrgica, é um procedimento, eles não podem me oferecer esse orçamento porque não sabem quantas sessões vão ter que fazer, depende também da idade, do grau de dificuldade do meu pai. Envolve muitas questões e falaram que é impossível dar o orçamento — explicou à reportagem a filha de Osvaldo, Gisele Cristina Morais.

O Agora entrou em contato com o hospital Biocor, de Belo Horizonte, para confirmar as informações, mas, até a publicação desta matéria, ainda não havia retorno.

Regulação

No ínicio de tudo, Osvaldo foi para a cidade de Oliveira, onde fez um tratamento de pulsoterapia para tentar frear a doença.

— Aí ganhou alta, achando que tinha recuperado, mas, dois dias depois, ele teve uma piora muito grande, já começou a perder o movimento dos braços. Nisso, fui para a UPA, fiquei dez dias esperando vaga no CSSJD — conta Gisele.

Desde então, segundo ela, o pai está à espera de uma vaga.

— Perdendo tempo! Eu não entendo por que essa vaga não sai. Eu sei que toda pessoa tem direito a tratamento, por que meu pai não está tendo esse direito? Por que está sendo rejeitado? Por que diz que vai pra regulação em BH e volta, eles não aceitam? Por que isso está acontecendo? — questiona Gisele.

As informações sobre o processo de transferência repassadas à filha são desencontradas.

— Todo dia eu vou à Regulação aqui no CSSJD e falam que está tudo certo, mas parece que está tendo uma confusão, porque ao mesmo tempo a Santa Casa fala que tem pendência para resolver. Não estou entendendo mais nada e ficando angustiada com isso, meu pai está perdendo tempo cada dia mais — reclamou.

O Complexo de Saúde informou à reportagem que o paciente foi cadastrado no dia 20 de outubro no Sistema do SUS Fácil para a transferência da unidade para outro centro hospitalar para a realização do plasmaferese, que não é feito no CSSJD.

— Desde então, o Complexo de Saúde São João de Deus e a Secretaria de Saúde estão concentrando todos os esforços para conseguir essa vaga para o paciente, porém, até o momento sem sucesso e que toda a assistência está sendo prestada ao paciente, que neste momento segue aguardando por sua transferência — informou ao Agora, em nota, o hospital.

Espera

Enquanto a vaga não é liberada, o médico que atende Osvaldo sugeriu que ele fosse levado para Bambuí, onde faria uma reabilitação.

— Como meu pai está ficando muito tempo parado, acamado, está perdendo muita massa muscular e pode começar a atrofiar. Mas lá não vai ser tratado o problema, só vai reabilitar. Porque o correto seria tratar a inflamação na medula que fez com que ele perdesse os movimentos do corpo. Eu até conversei isso com o defensor público, que disse que, se ele for para lá, pode ter dificuldade na transferência, pode haver complicações. Eu fico sem saber o que fazer, meu pai já está parado aqui tem muito tempo — disse Gisele, que também afirmou que já não sabe mais a quem recorrer.

— Mandar para Bambuí porque a vaga não sai? E o tratamento que meu pai precisa? Precisa dele para ter uma esperança, às vezes dar uma reagida. Meu pai dois meses atrás estava andando com meu cachorro na rua, hoje está praticamente tetraplégico. Evoluiu muito rápido a doença, é perigoso parar o pulmão, o coração… Ele está fraco, falando com dificuldade, eu morro de medo de perder meu pai!

De acordo com ela, quando foi feito o tratamento em Oliveira, o problema estava apenas nas pernas.

 — Agora subiu pro tronco, chegou próximo do pulmão. Meu pai ja não mexe mais com as mãos, muito pouco dos braços. Eu tenho medo de dar uma recaída de novo. A pessoa morre aqui no hospital por causa de uma burocracia — reclamou.

A Santa Casa BH informou à reportagem que solicitou ao CSSJD a documentação correta para realização do procedimento.

— Assim, poderá analisar o pedido e definir a prioridade de atendimento — afirmou. 

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