'JUSTISSA'

Inocêncio Nóbrega                                                       

No calendário da história do país, o primeiro grito de revolta contra a espoliação lusa vem do maranhense Manuel Beckman, em 1684. Isso não descredencia, anos atrás, Domingos Calabar, nesse mesmo sentido. Depois, os Mascates (1710), em Pernambuco. Manifestações populares explodiram, sem que detivessem canal de comunicação qualquer. Oficina gráfica é destruída no Rio de Janeiro, em 1747, a mando do governo de Lisboa. A própria Revolução de 1817 carecia desse importante elo com o povo.

O quadro foi bem diferente nas proximidades da Independência. Surgem novos ingredientes: batinas, maçonaria, panfletos, jornais. Encurrala-se a Coroa. Patroni tinha o seu “O Paraense”; o indomável jornalista baiano Cypriano Baratta, o “Sentinela da Liberdade”, em onze sequências de títulos, conforme o presídio onde habitava; Hipólito da Costa nos enviava, clandestinamente, o seu “Correio Braziliense”, números sempre apreendidos; Gonçalves Ledo e Januário Barbosa, o “Revérbero Constitucional Fluminense”. “O Malagueta”, de Augusto May, e “O Espelho”, do cel. Manuel Ferreira, inauguram o estilo satírico.

Com esse aparato, D. Pedro chega ao Poder, na condição de Imperador liberal. Não demora preferir o autoritarismo, mas não resiste às críticas de “O Repúblico”, do incendiário Borges da Fonseca, nem do jorn. Líbero Badaró, no “Observador Constitucional”, que dispara contra o monarca, por haver dissolvido a Constituinte de 1823. Entretanto, é assassinado.  Acossado por todos os lados, abdica do trono.

Tivemos diversos exemplos, na Velha e Nova República, de jornais que foram obrigados cerrar suas portas, quando não empastelados, e de profissionais da imprensa que perderam suas vidas, na luta pela liberdade, democracia e soberania da Nação. Tais anseios crescem, ainda hoje, fazendo acelerar as batidas cardíacas, em virtude de pressões sofridas, vindo, por vezes, a óbito. É o caso Paulo H.Amorim, símbolo dessa corajosa cruzada histórica brasileira. Adotava um estilo mordaz, descontraído e hilariante, muito bem informado, nas impiedosas navalhadas de “Conversa Afiada”, sedimentadas nas suas convicções, conquistando milhares de leitores, a eles levando e traduzindo o que se passava nos bastidores das conspiratas palacianas. Criava bordões inesquecíveis: “Olá, tudo bem?”; “Aluísio, 300 mil”, referindo-se a Aluísio Nunes; “Folha de S. Paulo”, a “Felha”; PIG, “Partido da Imprensa Golpista”, incluindo a Globo. “Padim Pade Cerra”, dedicou a José Serra. “Cegonhola”, Urubóloga”, para denunciar desmandos de governos reacionários. Para mim, o mais genial, “Justissa”, nos trazendo a grafia que faltava ao Poder Judiciário. Sua morte o transforma em mais um mártir do jornalismo investigativo.

 

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