‘Invasão’ ao Crevisa vira caso de polícia

Ricardo Welbert 

A Prefeitura de Divinópolis registrou ontem um boletim de ocorrência por invasão ao Centro de Referência de Vigilância em Saúde Ambiental (Crevisa). O crime teria sido cometido por pessoas ligadas à Sociedade Protetora dos Animais de Divinópolis (Spad), que teriam entrado sem autorização na sede do órgão durante a manhã, fotografado cães mortos e publicado as imagens na internet. O conteúdo viralizou e muitos internautas criticaram o Crevisa.

De acordo com informações publicadas na página da Spad, o caso começou quando a associação recebeu um alerta sobre um cachorro dálmata que estava agonizando em um lote vago na esquina da rua Fósforo com a rua Alumínio, no bairro Niterói. Às 13h27 da tarde de anteontem, a entidade publicou em sua página no Facebook a informação de que iria buscá-lo, mas soube que uma equipe do Crevisa já o havia recolhido.

Vários internautas perguntaram sobre o que teria acontecido com o animal após ele ter sido recolhido. Procurada pelo Agora, a presidente da Spad, Josiane Barreto Assunção, disse que telefonou para o Crevisa em busca de informações sobre o dálmata, mas não conseguiu.

— Duas voluntárias da Spad se disponibilizaram a ir ao Crevisa durante a manhã. Elas entraram no local acompanhadas por um funcionário, que mostrou a elas vários animais mortos. Dentre eles, o dálmata — diz Josiane.

As voluntárias fotografaram os animais. As imagens, que mostram cadáveres em sacos plásticos e guardados em um freezer, foram publicadas na página da entidade no Facebook.

Publicação na página da Aspad (Foto: Facebook/Reprodução)

— Vocês nos pediram informações sobre o dálmata. Está aí o dálmata e vários outros cães mortos no Crevisa. Me desculpem pelas imagens, mas é a realidade!!!! Mataram ele!!!! Isso é um absurdo!!!! — escreveu a Spad no post.

As imagens foram comentadas e compartilhadas por internautas que criticaram o que consideraram como uma matança injustificada de animais. Alguns deles afirmaram que alguns dos cães mortos haviam sido capturados pelo Crevisa anteontem, também no Niterói. Na ocasião, os agentes teriam dito a moradores que os animais seriam levados para castração, mas foram mortos.

Outro lado 

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), responsável pelo Crevisa, informou que o dálmata encontrado agonizando no terreno no Niterói estava caquético, com os membros traseiros paralisados, miíase (bicheira) nas patas dianteiras e secreção purulenta no corpo. O cachorro foi buscado a pedido de moradores da região, que ouviram choro e latidos durante toda a noite de segunda-feira, 19.

— Ele foi sacrificado com base na legislação vigente e com o laudo do médico veterinário, para evitar sofrimento ainda maior — explicou o órgão.

Sobre os outros cães que aparecem nas fotos, a Semusa acrescentou que nenhum deles faz parte dos que foram capturados para castração.

— Os agentes de saúde recolheram sete cães no bairro Niterói para realizar a castração, que faz parte de um programa de controle de leishmaniose visceral implantado na cidade. Os agentes de saúde explicaram aos moradores que os cães seriam recolhidos e iriam passar pelo processo de castração no Crevisa. Depois do período pós-operatório e, seguindo as normas do manual do Ministério da Saúde, os cães serão devolvidos aos seus donos. Se forem de rua, serão deixados no mesmo local recolhido — afirmou.

A Semusa nega que as voluntárias da Spad tenham entrado no local autorizadas e acompanhadas por qualquer funcionário. Por causa disso, ressalta, registrou boletim de ocorrência contra elas, por invasão.

— Eles entraram em locais restritos aos funcionários, sem a presença ou acompanhamento de servidores públicos — justificou.

Após a Prefeitura divulgar nota informando que registraria o boletim de ocorrência por invasão, as fotos foram apagadas da página da Spad.

A presidente da associação não quis informar ao Agora o nome do servidor municipal que teria recebido as voluntárias no Crevisa. Segundo ela, o motivo é risco de ele sofrer algum tipo de represália administrativa.

Necropsia

A pedido da associação, o Ministério Público de Minas Gerais determinou que a Polícia Militar de Meio Ambiente fosse ontem ao Crevisa para recolher as carcaças dos animais para necropsia.

— O Município não se opôs à remoção das carcaças pela Polícia Ambiental a fim de não deixar dúvida da necessidade da medida de sacrifício adotada. Os animais removidos serão levados à Universidade de Formiga para realização de perícia — explicou.     

Ainda segundo a secretaria, os resultados dos exames feitos nos animais armazenados dentro dos freezers deram positivo para leishmaniose e os donos assinaram autorização para o procedimento. — Os animais ficam armazenados no local até a retirada pela empresa responsável pelo recolhimento, o que ocorre uma vez por semana, às quintas ou sextas-feiras — informou.

Repercussão 

Após a repercussão das imagens, outra entidade ligada à defesa dos direitos dos animais se posicionou sobre o caso. Amanda Lopes, que integra a organização não governamental Vida Animal, parceira da Prefeitura, afirmou que discorda do sacrifício de animais não diagnosticados com leishmaniose visceral.

— Penso que o dálmata deveria ter tido a chance de ser salvo. Estamos enviando o pedido para que o Crevisa não recolha mais animais que não sejam para a análise e controle de leishmaniose. Eles já atenderam ao nosso pedido de não recolher mais filhotes, porque lá é contaminado e todos morriam. Tanto é que não recolhem mais — afirmou.

Amanda disse ainda que a Semusa está correta ao informar que os cadáveres armazenados em sacos plásticos não eram dos cães capturados no Niterói para castração.

— Cada animal tem uma ficha com o tutor responsável. As fichas estão à disposição para averiguação. De toda forma, também estou aguardando imagens deles — declarou.

Sobre os animais mortos nas imagens, Amanda Lopes diz que quer ver os relatórios com os exames que atestam o resultado positivo para a leishmaniose.

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