'É hora de definir as prioridades', diz especialista em empresas sobre crise

Maria Tereza Oliveira

Abrir ou não abrir? Em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19), o isolamento social foi introduzido no vocabulário do divinopolitano. Apesar de ter sido indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e especialistas e adotada por inúmeros países , ainda há uma polarização de opiniões a respeito da quarentena. Enquanto há quem defenda o isolamento, também há quem critique a pausa. Neste fim de semana, empresários realizaram carreatas pedindo a reabertura do comércio em diversas cidades do país incluindo Divinópolis. Por outro lado, não faltaram críticas aos atos, e, em alguns lugares, como Belo Horizonte, os manifestantes chegaram a ser multados. A Prefeitura, assim como o Governo de Minas, publicou decretos para restringir o funcionamento de parte do comércio. No entanto, o governador Romeu Zema (Novo) indicou que está repensando a situação. Para compreender mais o contexto do ponto de vista econômico, o Agora ouviu o mestre em administração e idealizador do projeto "Dr. na Empresa", Ricardo Moreira. Além disso, a reportagem entrevistou pessoas com opiniões distintas referentes ao fechamento do comércio.

Povo fala

A reportagem ouviu duas pessoas em momentos distintos e com opiniões diferentes.

Henrique Silva é jornalista e continua trabalhando em uma rádio diariamente. Ele revelou ser contra a reabertura do comércio agora.

— Eu acredito que uma abertura do comércio neste momento é algo muito perigoso para a sociedade. Temos de ter em mente que nem tudo se resume a capital e salário. As pessoas precisam de saúde para trabalhar e correrem atrás de seus sonhos. É necessário saber que o falido consegue se recuperar, mas o falecido não. Portanto, é melhor apertar daqui, dali e ficar em casa, pelo menos enquanto essa pandemia durar — contou.

Para a vendedora Maria Alice Corrêa, por outro lado, a situação é oposta. A loja em que ela trabalha não abre há mais de 15 dias.

— É óbvio que a doença é perigosa para alguns e eu não acho que a gente precise abrir a todo custo. Algumas medidas precisam ser adotadas, tanto de higiene quanto para evitar aglomeração, mas a gente tem que trabalhar. Não adianta fechar tudo e a gente se salvar do vírus e morrer de fome. É tudo muito bonito no papel, mas no fim do mês as contas chegam e como meu patrão vai me pagar se não faturar? — questionou.

Sobrevivência

De acordo com o especialista em empresas Ricardo Moreira, que também é ex-professor da PUC Minas, Fundação Getúlio Vargas (FGV), Fundação Dom Cabral (FDC) e Ibmec, uma empresa é formada por pessoas e capital para se manter em funcionamento.

— As pessoas em uma empresa são organizadas em funções para agregar valor e, por consequência, gerar renda. Elas giram os ativos, investimentos da empresa, giram o capital para produzirem riqueza. Então o toque principal neste momento é cuidar das pessoas — destacou.

De acordo com ele, apesar de os empresários terem diversas despesas, é necessário ter uma prioridade nos pagamentos.

— Sei que você [empresário] tem salários, encargos, impostos, fornecedores para pagar, enfim, todo um custo que precisa arcar mensalmente. Mas o fundamental é relacionar tudo o que você paga: credores, bancos, fornecedores, sua folha salarial, despesa com sua vida, enfim, relacione tudo. A partir de então, defina prioridades. Ou seja, primeiro você, sua família, sua vida e a sua equipe. Pois as pessoas precisam comer, precisam de uma renda, e, a partir daí, veja o que fará com o restante do dinheiro. Lembre-se que a gente não sabe o quanto vai durar essa crise, mas, analisando o cenário de hoje, pode ser em torno de três meses. Então, crie uma reserva, planeje onde conseguirá os recursos para arcar com as pessoas durante este período — aconselhou.

Conforme o mestre em administração, mesmo que não consiga arcar com os salários na íntegra, pelo menos uma parte precisa ser repassada aos funcionários.

— Para as demais contas, precisa ser definido um grau de importância. Por exemplo, energia elétrica, internet, telefone são essenciais. Já em relação aos impostos e fornecedores, será que são prioridades? — questionou

Conforme explicou, é necessário haver negociação para estas despesas.

— Não estou dizendo para não pagar, pelo contrário, os compromissos precisam ser arcados. É momento de ligar para o fornecedor e renegociar. Se iria pagar em três parcelas, jogue para quatro. O momento é de muita cautela. O que interessa é ter ações práticas na empresa, começando por preservar as pessoas garantindo um capital para que você e sua equipe sobrevivam — apontou.

De acordo com ele, essa atitudes terão efeitos quando as atividades forem retomadas. 

— Aproveite o momento parado e recicle: estude, leia, levante seus custos, monte planilhas, reveja e repense a estratégia de trabalho. É momento de reinvenção. Já tivemos outras crises tão sérias ou mais e elas passaram. É momento de sobreviver, de priorizar as pessoas nos grupos de riscos e sua equipe — frisou.

Apesar disso, o professor não descartou a preocupação e revelou:

— Aprendi que na hora dos problemas você separa os "homens dos meninos". Aprendi que, durante a crise, em vez de reclamar, o melhor é agir. (...) Eu sei que o momento é difícil, mas tenho convicção de que vai passar. Provavelmente em maio as atividades devem voltar. Teremos um ano duríssimo, o processo de reconstrução deve ser demorado, mas, no fim, vamos superar — projetou.

Carreata

De vidros fechados e usando máscaras, empresários e alguns trabalhadores realizaram uma carreata que percorreu as principais ruas de Divinópolis pedindo a reabertura do comércio no último sábado, 28. 

Reabertura no estado?

Na sexta-feira, 27, Romeu Zema que estudaria durante esta semana a abertura de alguns setores do comércio. O governador, no entanto, revelou que a ação depende dos números de casos do coronavírus em Minas.

Ontem, Minas Gerais registrou a primeira morte confirmada pela Covid-19. Também até ontem, eram 261 casos confirmados da doença no estado. Outras 23 mortes estão em investigação.

O Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) reagiu às falas de Zema e no domingo, 29, enviou um ofício por meio do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa da Saúde, à Secretaria de Estado da Saúde (SES), pedindo para que as informações de qualquer mudança nas medidas propostas pelo Estado para a restrição do convívio social sejam repassadas ao órgão. Atualmente, está em vigor no estado um decreto feito pelo próprio Romeu Zema, que restringe parte do comércio. Na ocasião, o governador decretou calamidade pública no estado.

Município

A Prefeitura, por outro lado, informou ontem que ainda está em vigor o decreto publicado pelo Governo do Estado com o qual o decreto municipal se encontra alinhado estabelecendo limitações para o funcionamento de algumas atividades comerciais e de serviços em decorrência da pandemia de Covid-19.

— Assim, é fundamental reforçar que a desobediência às normas legais configura em crime contra a saúde pública, estando os responsáveis por tais atos sujeitos ao rigor da lei, inclusive, a com a possibilidade de cassação do alvará de funcionamento. Agentes de Segurança Pública e a fiscalização continuam os trabalhos de vistoria — alertou. 

De acordo com o Município, especialistas atestam que o isolamento tem permitido o achatamento na curva de casos registrados, garantindo a preservação da vida e permitindo o fôlego no atendimento à população através do Sistema Único de Saúde (SUS).

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