“Foi pelo padrão de mulher perfeita que eu perdi a minha esposa”

Anna Lúcia Silva

“Ao entrar no hospital, ela me disse que estava realizando um sonho, me deu um beijo, se despediu, entrou para a cirurgia e não voltou.” Essas são as palavras do marido de Cássia Marçal, que, aos 42 anos, faleceu no hospital onde projetou a realização pessoal de um corpo esculpido em uma cirurgia de abdominoplastia.

A mulher sofreu complicações clínicas antes do procedimento cirúrgico e morreu na sexta-feira, 19. Segundo o que o médico informou ao marido, Cássia teve um choque anafilático durante a aplicação da anestesia geral, que provocou uma convulsão e quatro paradas cardíacas, sendo a última, fatal. Até o momento, o marido dela, Júnior Marçal, segue sem explicações objetivas do que de fato ocorreu no procedimento. O que ele sabe é o que foi dito pelo médico e que consta no obituário disponibilizado na sexta.

A cirurgia

A quinta-feira, 18, data da cirurgia, começou cedo para Cássia, diretora pedagógica em uma escola infantil em Divinópolis. Ao acordar, ela recebeu a sogra em casa, responsável por ficar com as filhas de sete e 12 anos no período da cirurgia. Aquela manhã era especial para Cássia, que, em momento algum, levou em consideração os riscos, afinal, segundo relato médico, a chance de intercorrência era de 1%. O que ela queria de verdade era ficar livre das marcas dos partos que ficaram em seu abdome.

A abdominoplastia é um procedimento de retirada de gordura e pele abdominal, que garantiria uma barriga torneada e sem qualquer sinal de gordura, ou mesmo as marcas das duas gestações.

— Era o sonho dela e, mesmo que ela não precisasse fazer nada para ficar mais linda, eu não podia impedir essa cirurgia porque era uma vontade que seria realizada — disse o marido.

A cirurgia, marcada para as 7h, ocorreu em um hospital no Centro de Divinópolis. Antes de entrar para o departamento cirúrgico, Cássia Marçal reforçou com o marido a satisfação em ter a oportunidade de passar pela cirurgia que garantiria a ela mais vitalidade feminina.

Segundo Júnior, as complicações começaram 20 minutos após Cássia entrar na sala de cirurgia. Ele presenciou a movimentação de médicos e enfermeiros no bloco, onde aguardava pela saída da esposa.

— Eu vi quando subiram com desfibrilador, vi enfermeiras e médicos correndo de um lado para o outro e depois soube que a complicação era com a Cássia. Ela teve duas paradas cardiorrespiratórias revertidas. Em seguida, foi medicada e levada para o CTI, onde teve uma melhora significativa, no entanto, na sexta-feira, 19, ela teve uma febre alta e outra parada cardíaca, desta vez fatal — disse.

Padrão de beleza

Para Júnior, a esposa era linda e, mesmo que ele dissesse a ela que seria dispensável qualquer procedimento, ela não se dava por satisfeita, até que ele aceitou apoiá-la, afinal se tratava de um sonho.

— Cássia entrou para a sala de cirurgia para se encaixar ao padrão socialmente aceitável de mulheres magras e delineadas. Era linda, mas acredito que a sociedade, de fato, faz com que as mulheres busquem cada vez mais a perfeição e isso é um desafio à vida — disse.

Júnior segue com dúvidas não esclarecidas sobre a morte da esposa, mas alerta sobre a certeza de que as mulheres buscam corpos moldados aos padrões sociais.

— Sigo sem saber algumas coisas, como a precisão dos exames. Porque não teve um exame que detectou que minha esposa teria reação com a anestesia. Sabemos que não levamos em consideração o 1% de risco relatado pelo médico, e foi pelo padrão de mulher perfeita que eu perdi a minha esposa. Essa experiência serve, obviamente, para alertar mulheres que desejam passar por procedimentos cirúrgicos de que os riscos existem e eles podem ser fatais — finalizou Júnior.

O Agora se solidariza com o falecimento de Cássia e presta singelas condolências à família. Cássia deixa um legado de mulher guerreira vitimada por uma fatalidade da vida.

 

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