'Abolição da escravidão não foi uma conquista', diz ativista divinopolitana

 

Ana Laura Corrêa 

13 de maio é marcado por ser o dia em que, em 1888, foi assinada a lei áurea. Para a ativista divinopolitana Maria Catarina Laborê, negros e negras nada têm a comemorar na data. 

— A abolição da escravatura no Brasil não foi uma conquista, ela teve de ser feita e não veio com uma vontade política de acabar com a escravidão. Naquele momento, éramos o único país do mundo em que a escravidão existia. E hoje é o negro quem está na periferia, a maioria dos analfabetos é negra. No mercado de trabalho, quem ganha menos é o negro — afirmou. 

Para a ativista, nenhuma das leis abolicionistas veio para garantir a liberdade dos negros. 

— A lei do sexagenário libertava o cidadão depois que ele não valia mais nada e estava sem saúde. Ele ficava abandonado. A média de vida de um escravo era de, no máximo, 35 anos. A Lei do Ventre Livre, por sua vez, libertava o ventre da escrava, mas a mãe continuava cativa. Já a lei que exterminou o tráfico negreiro foi uma das maiores balelas. Não foi feita para libertar o negro, mas para permitir a chegada da mão de obra europeia, que tinha terra, educação e salário. O negro ficou 400 anos na escravidão e no dia da abolição saiu a esmo, sem salário, sem terra e sem dinheiro — disse. 

 Educação  

Entrou em vigor em 9 de janeiro de 2003 a Lei Federal 10.639, que torna obrigatória a inclusão do temo “história e cultura afro-brasileira” no currículo das escolas.  

— A lei já completou 15 anos e a maioria das escolas não a conhece, continuam impregnando totalmente errado sobre a abolição; nossos heróis e heroínas negras não são conhecidos. A educação precisa assumir o papel de abolicionista e as famílias precisam entender que crianças não nascem racistas, mas aprendem a ser com a família, com a sociedade ou com a escola. A abolição não resolveu nosso problema nem vai resolver. Temos de dar sequência à abolição. A luta por direitos permite uma abolição mais concreta — afirmou a ativista. 

 Divinópolis  

Maria Catarina considera que Divinópolis é uma cidade que expressa, no cotidiano, práticas racistas. 

— Se você olhar o comércio, verá poucos rostos negros. E não porque o negro não quer, mas porque as pessoas procuram não contratar. Os mendigos na rua advêm da escravidão — disse. 

A ativista disse que tenta conseguir na Câmara Municipal a criação do Conselho da Igualdade Racial. 

— Queria que a Câmara repensasse políticas públicas. Queremos que os comércios abram cotas para admissão dos jovens negros, queremos mais força desse segmento da população étnica porque, no momento em que vivemos, do golpe no Brasil, sabemos que as reformas vão aprofundar o sofrimento e a exclusão do negro— explicou. 

Maria Catarina também chamou a atenção do Poder Judiciário do município. 

— Às vezes, os casos são encarados como brincadeira. O mundo jurídico, a igreja, ninguém pode se omitir. A cúria romana sempre foi muito racista. Se você contar quantos papas negros disputaram um papado, quase não há, a igreja silenciou e ajudou a perpetuar a escravidão. Os índios, erradamente, foram catequizados. O negro não, porque consideravam que ele não tinha alma — afirmou.  

Política  

Maria Catarina lembrou que, apenas em 2015, Minas Gerais teve pela primeira vez em sua história uma secretaria negra da Educação, Macaé Evaristo. 

— Ela sofreu muito preconceito. As pessoas não admitem, acham que a negra, principalmente, tem de ser relegada como empregada doméstica, babá, vender o seu biscoito. Nós tivemos um pleito com bastante representatividade negra. No entanto, não adianta nada o negro ser votado e chegar ao poder, mas qual é o seu olhar para a questão racial?  — questionou. 

 

 

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