“A presa mais fácil”

É assim que uma das vítimas do pastor preso na semana passada se classifica, pela proximidade que tinha com ele

Matheus Augusto

“Eu estou aqui, conseguindo dar entrevista, por causa de medicamentos”, diz uma das vítimas enquanto conta seu relato. Segundo ela, são 14 comprimidos diariamente, sendo quatro apenas para dormir. Ela também diz que ficou internada por quase 30 dias em janeiro deste ano, quando descobriu que estava sendo usada pelo pastor Jesiel Júnior Costa Oliveira, que congregava na igreja Batista Filadélfia, no bairro Porto Velho, preso pela Polícia Civil (PC) na terça-feira, 8.

Jesiel encontra-se, preventivamente, no presídio Floramar.

Começo

A vítima, que por questões de segurança não será identificada, explica que conheceu Jesiel quando ele ainda era conhecido como “filho do pastor”, e não um líder religioso.

— Eu conheci o Jesiel quando ele devia ter 16 anos, através da igreja Batista Filadélfia, a qual comecei a frequentar com minha família. Nós fomos tendo convívio e as famílias ficaram amigas. Eu frequentava a casa dele com a minha família, e vice-versa, quase como parentes. Eu tinha mais convívio com eles do que com meus próprios familiares. E assim foi por muitos anos — conta.

A vítima também relata que acompanhou parte do desenvolvimento do futuro pastor.

— Eu cuidei da mãe dele quando ela teve câncer, ia para a casa dele, ajudei muito. Nós éramos muito amigas, ela desabafava muito comigo. Então eu vi o Jesiel acabar de crescer — explicou.

Ela também detalha que, após uma briga entre o presbítero da igreja e o pai de Jesiel, que supostamente estava desviando dinheiro do caixa da igreja, se afastou da Batista Filadélfia. Ela disse ainda que, na época, por passar boa parte do tempo cuidando da mãe que estava doente, faltava aos cultos e não saberia afirmar quem estava correto na discussão. Para não tomar partido, optou por buscar conforto religioso em outro local.

Um ano depois, ela voltou a frequentar a igreja, mas, após novos desentendimentos, decidiu que “nunca mais pisaria o pé” ali. No entanto, mesmo afastada, a vítima conta que, há cerca de três anos, Jesiel a procurava para que ela retornasse às pregações.

— No meio do ano passado, eu tinha feito uma cirurgia de estômago e, após dois meses de operada, ele me procurou novamente para voltar à igreja e o contei que estava com um problema jurídico. Ele me disse que resolveria para mim. Eu estava tentando arrumar o documento do meu carro e não sabia qual era o problema — relata a vítima.

A partir de então, ela contou que Jesiel teria construído uma narrativa para criar a ilusão de que o carro dela era roubado. Ele ainda teria dito a ela que o chassi do veículo estava adulterado. A vítima disse ter achado a alegação do pastor estranha, uma vez que já havia passado pela vistoria em Divinópolis.

— Mas, por confiar tanto nele, eu acreditei — disse.

A vítima contou também que, mais tarde, Jesiel ainda afirmou que ela estava sendo investigada como parte de uma quadrilha de roubo de carros.

— Neste momento, meu psicológico já abalou. Minha vida se resume em ir à igreja, trabalhar e cuidar da minha vida. Eu fiquei apavorada e pensava: “Meu Deus, o que será que aconteceu? Não é possível que estou esse tempo todo com o carro e não sabia que ele estava com chassi adulterado” — afirmou.

Após um determinado período, Jesiel teria entrado em contato com ela para informar que a situação seria esclarecida, mas com uma condição.

— Ele falou: “O delegado vai resolver. Só que eu tenho que levar R$ 3 mil para um ‘café’. Você sabe como esse povo é, né?”. E eu não tinha o dinheiro, estava doente, sem trabalhar — explicou.

Aos poucos, a narrativa avançava e o golpe ficava mais próximo. Ela conseguiu o dinheiro emprestado e foi até a delegacia, onde recebeu um documento que a classificava como depositária fiel. Ela só foi descobrir mais tarde, após conversar com a titular da Delegacia de Estelionato da Polícia Civil em Divinópolis, Adriene Lopes, que o termo definia a vítima como responsável pela guarda do bem.

Após a situação ser, supostamente, esclarecida, ela voltou para a Batista Filadélfia.

— Ele me levou para a igreja de novo porque eu seria o braço direito dele, que eu era como se fosse a mãe dele, tanto é que me chamava assim e confiava em mim. Ele falava que eu gostava mais da minha filha do que dele, que mãe não fazia com o filho certas coisas que ele [Jesiel] quisesse. Ele chegava, às vezes, e dizia: “Dá isso aqui para mim, aposto que se fosse para sua filha você daria”. Ele me pressionava bastante — explicou.

Foi questão de tempo até o pastor a oferecer a possibilidade de abrir um filial da empresa de recurso de multas da qual era dono.

— Ele veio com esse negócio da franquia. Eu não tinha dinheiro. Lembrei-me que eu tinha um lote que meu marido havia adquirido anos atrás — pontuou.

Segundo a vítima, o marido ficou com um pé atrás sobre a possibilidade de venda do terreno para o investimento na suposta franquia e teria dito: “Se for para o bem, tudo bem, mas eu não confio nele”.

Ela ainda foi informada que, em dias ruins, o lucro diário era de R$ 800.

— A primeira coisa que ele fez foi me levar à igreja e me oferecer a franquia. Ele disse que a oportunidade só passava na vida da pessoa uma vez. Só sei que convenceu. E quem endossou foi sempre o pai dele. Ele alegava que estava oferecendo a oportunidade às pessoas que sempre o ajudaram — explicou.

Processos

A vítima diz que a franquia, aberta em dezembro, está em seu nome. Segundo ela, no dia da locação do imóvel, tanto o pai quanto o filho [Jesiel] estavam com o nome sujo.

— Ele me disse: “Põe no seu nome então, porque você vai ser minha sócia mesmo”. Como eu confiava muito nele, e, realmente, eu estava tratando ele como um filho, sem perceber, eu aceitei. Eu fazia tudo que ele falava — relatou a vítima.

Ela ainda contou que o próprio esposo chegou a alertá-la sobre seu relacionamento com o pastor.

— Ele está com um domínio tão grande na sua vida que eu não estou entendendo — teria dito o marido.

E os problemas da franquia aberta já começaram a aparecer.

— O Jesiel não pagou nem um mês de aluguel. Agora chegou uma carta de intimação, porque a locadora está processando a mim e aos avalistas — contou.

Ela afirmou que, na última semana, ligou para o pastor pedindo ajuda, pois estava doente, conseguindo medicamentos e alimentos de familiares e amigos, e não teria condições de arcar com os custos do processo e do aluguel, pois, segundo ela, desde se envolveu na franquia está sem trabalhar.

— Eu pensei: “Para quem está viajando para Madrid todo dia, pagar três ou quatro mil reais de aluguel resolveria o problema” — afirmou.

No entanto, o pastor teria se negado a ajudá-la, dizendo que ela tinha que resolver o problema sozinha.

— Ele está preso, mas e quem está de fora? Estou morrendo de medo, pelos meus filhos. Porque eu não sei com quem ele mexe. Até então, pela pessoa que conheci, nunca imaginava que um dia eu ia ver tanta barbárie — relata.

Saúde

O sentimento de decepção também debilitou sua saúde, como ela própria alega.

— Tive vários problemas de saúde, tenho até hoje, inclusive, depressão. Faço tratamento com psiquiatra, angiologista, proctologista, reumatologista e de fribomialgia. Com o meu emocional nesse estado, não tenho nem condições de trabalhar. Se eu não estiver medicada, só choro. Estou assim desde janeiro — desabafa.

Prejuízo

Além do lote, que segundo a vítima foi transferido para o nome do pastor e, posteriormente para outra pessoa, ela teve outros gastos, como o do empréstimo. Houve também despesas do imóvel da franquia, de quando ocorreu um curto-circuito no local e foi necessário fazer reparos, com os quais Jesiel não arcou. Ele ainda teria solicitado a instalação de internet na filial e a impressão de panfletos, que, segundo a vítima, também não foram pagos.

Ela estima, segundo o cálculo de um contador, que o lote transferido para Jesiel tem valor aproximado de R$ 40 mil.

Posicionamento

O Agora entrou em contato com o advogado Maciel Lúcio da Silva, que se apresentou com Jesiel na Polícia Civil no dia da prisão. Ele informou que não se manifestará sobre o caso até ser contrato oficialmente pela família.

 

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